F/ Mircea Iancu por Pixabay

 

1º de Maio: trabalho, poder e a negação da dignidade

Por Prof. Robson Ribeiro

Falar do Dia do Trabalhador hoje não é um exercício de memória, mas de lucidez. O trabalho, categoria central da modernidade, atravessa uma crise que não é apenas econômica, mas ontológica, política e espiritual. A data que nasceu do conflito corre o risco de se tornar símbolo vazio, incapaz de mobilizar sujeitos que já não se reconhecem como parte de uma mesma condição.

O trabalhador deixa de ser sujeito 
A ruptura mais evidente é social. O trabalhador já não se percebe como sujeito coletivo. A experiência comum de luta foi substituída por trajetórias individualizadas, marcadas pela lógica do desempenho. A precarização deixou de ser entendida como injustiça estrutural e passou a ser interpretada como fracasso pessoal. Nesse cenário, o trabalhador deixa de ser sujeito político para se tornar gestor de si mesmo, responsável por sobreviver em um sistema que o absorve e descarta com a mesma velocidade.

Essa fragmentação não é acidental, ela é funcional. O Estado, progressivamente capturado por interesses econômicos, desloca sua função: de garantidor de direitos para administrador da competitividade. Reformas, flexibilizações e desregulamentações são apresentadas como inevitáveis, quando, na realidade, expressam escolhas políticas que priorizam o mercado em detrimento da dignidade humana.

Pressão para flexibilizar direitos, relativizar garantias

É nesse ponto que o debate atual se torna incontornável. As recentes votações no Senado, frequentemente justificadas em nome do crescimento econômico ou da modernização, têm avançado na direção oposta à proteção do trabalhador. Ao flexibilizar direitos, relativizar garantias e favorecer interesses corporativos, tais decisões revelam uma lógica política que não representa o bem comum, mas a manutenção de privilégios. O problema não está apenas nas medidas em si, mas no horizonte que elas indicam: uma política que se afasta da sociedade para servir a si mesma.

A economia contemporânea radicaliza esse processo. O trabalho deixa de ser meio de realização e torna-se variável ajustável. A lógica da eficiência dissolve vínculos, elimina garantias e transforma o trabalhador em peça descartável. Trabalha-se mais, ganha-se menos e vive-se sob a constante exigência de performar. O fracasso, nesse modelo, é sempre individual, nunca estrutural.

A crítica, portanto, não pode ser superficial. Não se trata apenas de denunciar injustiças pontuais, mas de reconhecer que estamos diante de uma transformação profunda do próprio sentido do trabalho. Como observa Byung-Chul Han, o sujeito contemporâneo não é mais explorado por outro, mas por si mesmo. Já Zygmunt Bauman evidencia que, em uma modernidade líquida, o trabalho perdeu sua capacidade de gerar identidade e estabilidade.

A crise é também teológica

Mas a crise não é apenas sociológica, ela é também teológica. A tradição cristã compreende o trabalho como participação na criação e expressão da dignidade humana. Contudo, essa visão entra em choque com uma realidade em que o trabalho desumaniza e exclui. O risco é reduzir a teologia a um discurso moralizante, incapaz de enfrentar estruturas injustas.

A Doutrina Social da Igreja aponta para algo mais radical: a existência de estruturas de pecado. Não se trata apenas de indivíduos que erram, mas de sistemas que produzem exclusão. Quando decisões políticas, como as que hoje se observam nas instâncias legislativas, favorecem interesses particulares em detrimento da vida digna, estamos diante de uma forma institucionalizada de injustiça.

Resgatar o profetismo do 1º de maio

Por isso, recuperar o 1º de maio exige resgatar sua dimensão profética. Não basta afirmar a dignidade do trabalhador; é preciso confrontar as estruturas que a negam. Não basta falar em justiça; é necessário enfrentar os mecanismos que a inviabilizam. E isso implica recolocar a política em seu devido lugar: como serviço ao bem comum, e não como instrumento de autopreservação de poder.

A questão central já não é apenas melhorar as condições de trabalho, mas repensar o próprio sentido do trabalho em uma sociedade que perdeu sua referência no humano. Diante disso, o 1º de maio não pode ser celebrado de forma ingênua. Ele deve ser assumido como denúncia e projeto. Denúncia de um sistema que transforma trabalhadores em descartáveis. Projeto de uma sociedade que recoloca o humano no centro. Porque, no fundo, o que está em jogo não é apenas o trabalho, é o tipo de humanidade que estamos dispostos a sustentar.

* - Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves - Historiador, Teólogo e Filósofo

 

 

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