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11/02/2025 – Com mãos profanas... (Mc 7,1-13)

Por Antônio Carlos Santini

11/02/2025 – Com mãos profanas... (Mc 7,1-13)

Enquanto o povo simples acolhia com sede a palavra de Jesus, os homens mais ligados ao “establishment” religioso viam Jesus apenas como uma ameaça permanente. Ao dizer “ouvistes dos antigos”, mas “eu vos digo” (cf. Mt 5), Jesus podia dar mesmo a impressão de quebrar a tradição. Ao predizer a destruição do Templo, ele assumiria ares de iconoclasta. Era como se o povo fosse estimulado a entrar em choque com o ensino “oficial” dos escribas e fariseus.

No Evangelho de hoje, o simples fato de seus discípulos comerem sem lavar as mãos é traduzido como um choque entre o sagrado e o profano. Vejamos o comentário da Bíblia de Navarra:

“O lavar-se as mãos não era por motivos de higiene ou de urbanidade, mas tinha um significado religioso de purificação. Em Ex 30,17ss, a Lei de Deus prescrevia a purificação dos sacerdotes antes de suas funções cultuais. A tradição judaica tinha-o ampliado a todos os israelitas para antes de todas as refeições, querendo dar a estas um significado religioso que se refletia nas bênçãos com que elas começavam. A purificação ritual era símbolo da pureza moral com que uma pessoa deve apresentar-se diante de Deus (Sl 24,3ss; 51,4-9)...”

Mas do rito à rotina, do culto ao exibicionismo, é um curto passo. Pior ainda: os fariseus cuidavam do exterior, mas o interior não correspondia à casca visível de suas atitudes. O próprio Jesus chegou a defini-los como “sepulcros caiados” (Mt 23,27): “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”...

Evidentemente, a intenção de Jesus não era desvalorizar os sinais exteriores de nossa devoção, mas ele deixou muito claro que tais sinais só assumem algum valor diante de Deus quando o nosso coração corresponde intimamente aos gestos visíveis do lado de fora. Não sendo assim, nós vamos viver como quem usa máscaras de teatro, isto é, “hipócritas”. O gesto exterior calculado e fingido, sem pulsação íntima.

Por isso mesmo, devemos ficar atentos ao nosso modo de proceder, o que se consegue com a prática do exame de consciência e do cotejo com a palavra do Evangelho. O “eu” humano, com as sequelas da Queda original, está sempre sujeito à vaidade, visitado pelas tentações de exibicionismo e busca de aplausos.

Mesmo em nossas orações e celebrações comunitárias esse risco está presente. Pregar a palavra de Deus, rezar pelas pessoas que nos procuram, cantar e tocar na igreja – tudo isto deve ser realizado como serviço humilde. Até porque nossa vaidade acabaria anulando os frutos espirituais de nosso ministério...

 

Orai sem cessar: “Senhor, amais a sinceridade de coração.” (Sl 51,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

 

 

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