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“Ao sapateiro seus sapatos”: O que o “Chaves” nos ensina sobre vocação?

Por Ir. Dione Afonso, sdn

Roberto Gómez Bolaños [1929-2014], ator, roteirista e produtor tornou-se grande ícone da TV ao criar personagens como Chaves, Chapolin Colorado, O Cidadão e tantos outros. Popularmente conhecido como Chespirito, uma brincadeira com o nome Shakespeare, ao elogiá-lo por conta de sua tamanha criatividade e desenvoltura na escrita, Bolanõs marcou gerações. O filho mais novo de Bolanõs, Roberto Gómez Fernández, que também se enveredou pela estrada artística produziu uma minissérie biográfica trazendo alguns elementos que narram a jornada criativa de seu pai: Chespirito: sem querer querendo.

O primeiro detalhe que muito nos chama a atenção aparece logo no primeiro episódio, com Roberto ainda na juventude sente-se fora, desconectado e vagando por uma vida que não o preenche. Nessa fase ele conhece a jovem Graciela Fernández, por quem se apaixona, casa-se e constrói uma família de seis filhos. No episódio, um pouco desnorteado e titubeando, tentando entender o que ele deveria fazer da sua vida, se seguia seu sonho ou se permanecia no emprego que lhe dava segurança financeira, mas não o fazia feliz, Graciela lhe dá o conselho que muda sua vida: “ao sapateiro seus sapatos!”.

 “Ao sapateiro seus sapatos”: um ditado vocacional

A vocação não é fruto de um caos sem sentido. Ela é “um caminho, um projeto estupendo” de vida [ChV, n.248]. No mesmo número, a Exortação Apostólica do Papa Francisco afirma que a vocação é um “chamado à vida, à amizade com Deus e à santidade”. “Ao sapateiro seus sapatos”, quer dizer que cada vocação tem sua proposta; cada chamado tem sua resposta e cada dom tem seu fruto, produto, resultado. Este conselho muda de vez a vida de Roberto Gomez Bolaños: ele pede demissão de seu emprego, põe em risco seu futuro, e corre atrás de seu sonho, decide ouvir aquela voz que martelava dentro de si. O resultado? Bolaños tornou-se o maior escritor, criador e roteirista que seu país já viu.

“Chaves” tem muito a nos ensinar sobre vocação. “Toda história tem um começo e um fim, mas o que importa é o que nós conseguimos construir durante o caminho. Quantas pessoas aprenderam com a gente e o quanto nós fomos felizes”. A cada episódio, um ensinamento vocacional nos enriquece. Por exemplo, quando Bolaños cria o Chapolin Colorado, ele o cria para que, através do humor, ele pudesse tocar cada pessoa, ensinando a elas um pouco de humanidade.

O personagem satiriza o conceito de super-herói revelando que para ser um herói, é preciso assumir sua fraqueza, permitir errar, cair, e, no final, dar à pessoa uma chance de recomeçar e poder fazer tudo de maneira correta. Na Christus Vivit, aprendemos que ao discernir uma vocação, “é importante ver se a pessoa reconhece em si mesma as capacidades necessárias para aquele serviço específico à sociedade” [ChV, n. 255]. Portanto, quando os personagens de Bolaños não estavam mais cumprindo com o papel a qual foram criados, ele os tirava de cena, ou reescrevia.

A vocação “não se trata apenas de fazer coisas, mas fazê-las com um significado, uma orientação” [ChV, n.257]. E, no fim, poder perguntar se suas escolhas valeram a pena. Com 312 episódios originais de Chaves e 291 do Chapolin Colorado, traduzido para mais de 50 idiomas e transmitido em mais de 50 países, mais uma vez, Graciela, no último episódio, quando ela e Roberto enfrentam uma crise familiar e ele uma crise no trabalho, o questiona: VOCÊ ESTÁ FELIZ AQUI? Portanto, vocação “é ser para os outros”, para a família e para o trabalho. “A tua vocação te orienta para tirares para fora o melhor de ti para o bem dos outros” [ChV, n.257]. Para terminar, quando Bolaños dá vida ao Chapolin Colorado, ele cria para o personagem um escudo, um símbolo que, de certa forma, é também um ícone e uma inspiração vocacional: “com o coração na frente, para que nunca se esqueça de onde veio”.

 

 

 

 

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