Por Denilson Mariano
A Bíblia mostra que a injustiça social não é novidade na história. O profeta Miqueias viveu em um tempo em que os poderosos exploravam o povo e tomavam suas terras e casas. Ele denunciou duramente aqueles que acumulavam riquezas à custa dos mais pobres. Para o profeta, a terra era um dom de Deus e deveria garantir vida e dignidade para todos. Quando alguns se apropriam dela para o lucro e o poder, rompem a aliança com Deus e provocam sofrimento.
A mensagem de Miqueias continua atual. No Brasil de hoje, milhões de pessoas enfrentam dificuldades para ter uma moradia digna. O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 lembra que cerca de 6 milhões de famílias precisam de moradia, seja porque vivem em casas precárias, dividem a mesma residência com outras famílias ou gastam grande parte da renda com aluguel. Além disso, mais de 26 milhões de famílias vivem em moradias inadequadas, muitas vezes em áreas de risco, sem infraestrutura básica ou longe de serviços essenciais. Ao mesmo tempo, mais de 300 mil pessoas vivem em situação de rua, número que cresceu muito na última década.
Esse cenário está ligado também a mudanças econômicas ocorridas nas últimas décadas. A partir dos anos 1990, políticas econômicas reduziram o papel do Estado em áreas sociais e fortaleceram a lógica do mercado. A moradia passou a ser tratada cada vez mais como mercadoria, e não como um direito. Programas habitacionais tornaram-se insuficientes diante do crescimento das cidades. Enquanto isso, a especulação imobiliária valorizou imóveis para quem já tem renda alta, deixando grande parte da população sem acesso a uma casa digna.
Outro fator que agrava a desigualdade é o modelo econômico que concentra riqueza. O próprio Texto-Base da Campanha da Fraternidade aponta que uma grande parte do orçamento público é destinada ao pagamento da dívida pública, enquanto áreas essenciais como saúde e educação recebem percentuais muito menores. Essa dinâmica acaba transferindo renda da maioria da população para uma pequena parcela mais rica, aprofundando as desigualdades sociais.
Essa realidade lembra a denúncia feita pelo profeta Isaías, que criticava aqueles que acumulavam casas e terras enquanto outros ficavam sem lugar para viver. Ele alertava que o acúmulo de bens por poucos gera sofrimento para muitos e destrói o equilíbrio da sociedade. Quando a moradia se torna privilégio, a cidade deixa de ser casa comum.
Hoje, essa situação aparece de forma clara nas grandes cidades brasileiras. Dados recentes mostram que centenas de milhares de pessoas vivem nas ruas, muitas vezes após perderem emprego, romperem vínculos familiares ou enfrentarem outras situações de vulnerabilidade. A vida nas ruas expõe essas pessoas à fome, ao frio, à violência e ao abandono.
Também é grande o sofrimento nas favelas e comunidades populares. O Censo de 2022 identificou mais de 12 mil favelas e comunidades urbanas no Brasil, onde vivem mais de 16 milhões de pessoas. Muitas dessas famílias enfrentam dificuldades como falta de saneamento, moradias precárias, ausência de serviços públicos e violência urbana. Nessas regiões, a população é geralmente mais jovem e convive diariamente com a insegurança e a falta de oportunidades.
Além da pobreza material, essas populações enfrentam diversas formas de violência: agressões físicas, preconceito social e até negligência por parte das instituições públicas. Muitas vezes, a falta de endereço fixo impede o acesso a direitos básicos como saúde, educação, emprego e programas sociais.
Diante dessa realidade, a Palavra de Deus nos convida a olhar o mundo com os olhos da fé. Para a tradição bíblica, a terra e a casa são dons de Deus destinados a todos. Negar a alguém o direito de morar com dignidade é ferir o próprio projeto de Deus para a humanidade.
Por isso, a reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 convida as comunidades a conhecer melhor a realidade da moradia em cada cidade: quantas pessoas vivem nas ruas, quantas famílias estão em ocupações e quais políticas públicas existem para enfrentar o problema. Conhecer a realidade é o primeiro passo para transformar.
A mensagem dos profetas continua ecoando hoje: Deus está do lado dos que sofrem e chama seu povo a agir com coragem. Defender o direito à moradia digna é parte da missão cristã. Mais do que um teto, a casa representa segurança, convivência e esperança. É um sinal do cuidado de Deus com todos os seus filhos e filhas.
O trabalhador já não se percebe como sujeito coletivo. A experiência comum de luta foi substituída por trajetórias individualizadas, marcadas pela lógica do desempenho. A precarização deixou de ser entendida como injustiça estrutural e passou a ser interpretada como fracasso pessoal...
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