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O pecado de pensar

Por Pe. Leonardo Lucian Dall’Osto

Dentro do cristianismo organizado em instituições religiosas, sempre houve uma tensão entre a liberdade de pensar e o pensamento hegemônico das instituições. O fato de que as pessoas tenham aderido ao Evangelho foi compreendido pelas autoridades religiosas, em quase todos os tempos, como uma autorização para promover a censura no modo de pensar e de expressar livremente a opinião pessoal, de modo particular naquilo que tange às questões internas à doutrina.

Catequese e Teologia
Em relação à doutrina católica, que conheço relativamente melhor, essa tensão permanece mesmo em tempos de Francisco. O atual pontífice já várias vezes deixou claro que deve-se fazer uma distinção entre a catequese, que é o ensino oficial da doutrina e a teologia, que é a inteligência da fé. Para o Papa, a catequese sempre está situada dentro do tempo em que se encontra a Igreja, portanto, é apenas a comunicação em linguagem popular daquilo que se crê. Já a teologia deve estar sempre à frente, chegando às “fronteiras” e estabelecendo diálogo com a realidade como tal. Essa é uma importante distinção.
Durante muito tempo, não apenas no ambiente católico, mas sobretudo neste, mesmo as opiniões dos teólogos foram censuradas, condenadas e proscritas. Ainda que fossem questões periféricas que em nada contradissessem o conteúdo central da fé. Bastava o medo de perder a hegemonia sobre o pensamento que a instituição reagia virulentamente contra aqueles e aquelas que ousavam pensar mais além. O controle sobre o pensamento é um dispositivo de poder que Jesus rejeitou, mas as igrejas não.
Não é segredo para ninguém que por sete séculos a Inquisição católica perseguiu, inquiriu, torturou e levou à morte (sob o sofisma de entregar ao “poder secular” para receber a pena para crime de heresia) homens e mulheres que apenas pensavam de forma diferente. Pensar foi criminalizado. Durante a idade média, o espaço universitário conheceu a efervescência das discussões teológicas, mas fora desse ambiente sempre se receou que a liberdade de consciência fosse um perigo a ser extirpado. Ainda sob Pio X, início do século passado, o decreto “Lamentabili Sine Exitu”, do então Santo Ofício, condenou qualquer possibilidade de liberdade em matéria de inovação no pensamento teológico. Graças a Deus, o Concílio Vaticano II mostrou a caducidade de tais condenações.
Porém, mesmo tendo o Concílio não apenas reestabelecido o diálogo com o homem contemporâneo, mas também assegurado a liberdade de consciência de cada ser humano, ainda sobrevive na Igreja o medo da liberdade de pensamento. Dizia um biblista italiano que “pensar com a própria cabeça é um pecado que a instituição não perdoa”. O atual Papa teve e tem a coragem de, em muitos momentos, pensar com a própria cabeça e externar o que pensa, porém nas engrenagens da instituição isso ainda é visto com desconfiança.

Os fanáticos e o que têm interesses
Em geral podem-se distinguir dois grupos na Igreja Católica que evitam ao máximo pensar livremente: os fanáticos e o que têm interesses. O primeiro grupo é aquele que olha com desconfiança qualquer tentativa de arejar a doutrina ou a disciplina da Igreja. Eles conhecem a “verdade”, a dominam e a instrumentalizam para oprimir e amedrontar. Francisco costuma dizer que transformam a doutrina em ideologia. O fanático é cego pois não enxerga a realidade; surdo pois não escuta nada além de si mesmo; burro, pois pensa que o mundo é limitado tanto quanto sua estreiteza mental; perigoso pois agride, calunia, e até mata por suas visões deturpadas de verdade. A “verdade” do fanático nada tem em comum com a Verdade do Evangelho (Jo 14,6).
O segundo grupo é pernicioso tanto quanto o primeiro. À época de Jesus os saduceus eram os representantes máximos daqueles que defendem seus interesses e que, para isso, usam o nome de Deus. Eles viviam pela própria conveniência. O próprio Caifás, então Sumo Sacerdote, declarou que era conveniente que Jesus morresse para que houvesse tranquilidade na relação com Roma (Jo 11,50). Os que cuidam dos próprios interesses sobrevivem no meio católico especialmente pelo clericalismo, tão difundido dentro da Igreja. Visível mais entre o clero, também tem raízes no laicato. É interessante notar que quando um padre quer, a todo custo ser nomeado bispo, ele imediatamente abdica ao direito de pensar com a própria cabeça. Não é que ele seja um fanático, mas age de acordo com interesses. Não pensa, não fala, não se posiciona. Na cultura popular se diz “fica em cima do muro”.
A questão central é saber: essas foram as posições de Jesus? Nele não se encontram nem essa forma patológica de religião que é o fanatismo, tão pouco a preocupação com os próprios interesses pessoais. Jesus era livre. Livre tanto das amarras e interesses religiosos quanto de interesses políticos. Por ser livre pensou, falou e agiu incomodando ambas as instituições: a religião e o império. Na Igreja não é diferente. Só se atreve a pensar com a própria cabeça aqueles que, de fato, são livres.

Pe. Leonardo Lucian Dall’Osto  Possui graduação em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul (2007) e graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pela Pontificia Università Lateranense de Roma (2012). Atua como sacerdote na Paróquia de São Francisco de Paula - RS. Auxilia nos cursos de Teologia da Diocese de Caxias do Sul, nas áreas de Teologia Sistemática e História da Igreja.

 

 

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