Por Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves
Ao longo de toda a Semana Santa, fomos conduzidos por um caminho progressivo e exigente: da entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, que revela a fragilidade das expectativas humanas; passando pela Quinta-feira Santa, onde o amor se expressa no serviço e na entrega; pela Sexta-feira Santa, que expõe, sem disfarces, a realidade da cruz como consequência da negação do cuidado; e pelo Sábado Santo, que nos educa na permanência e na espera.
De fato, o Domingo de Páscoa se apresenta como a afirmação decisiva da fé cristã: a vida prevalece diante da morte. Não como negação da dor vivida, mas como sua superação. Não como fuga da realidade, mas como sua transformação mais profunda.
A Páscoa não elimina o sofrimento vivido, não apaga a cruz, não nega as marcas da história. Ao contrário, ela ressignifica tudo isso. O Ressuscitado é o mesmo que foi crucificado. As feridas permanecem, mas já não definem o fim. E isso muda radicalmente a maneira como compreendemos a vida: a dor não é a última palavra.
Em um tempo marcado pela instabilidade, pela insegurança e pela fragilidade dos vínculos, a esperança cristã não pode ser confundida com otimismo ingênuo. Não se trata de acreditar que tudo dará certo de forma automática, mas de sustentar a convicção de que o sentido não se perde, mesmo quando as circunstâncias parecem contradizer.
A ressurreição inaugura uma lógica que desafia o nosso modo habitual de lidar com a realidade. Em vez de responder à violência com mais violência, aponta para a possibilidade de reconstrução. Em vez de ceder ao desânimo, propõe a permanência no bem. Em vez de se fechar no próprio interesse, abre para o outro.
No entanto, viver a Páscoa exige mais do que reconhecer um acontecimento; exige posicionamento. Não basta afirmar que Cristo ressuscitou — é preciso permitir que essa verdade transforme a forma como nos relacionamos, como decidimos, como enfrentamos as dificuldades do cotidiano.
As situações do nosso tempo, as desigualdades persistentes, a indiferença diante do sofrimento alheio, a superficialidade das relações, a pressa que impede o encontro verdadeiro, continuam a desafiar a vivência da fé. A Páscoa não nos retira dessas realidades, mas nos insere nelas com um novo horizonte.
A esperança pascal não é fuga da realidade, mas compromisso com ela. Quem crê na ressurreição não ignora os problemas do mundo; ao contrário, assume uma responsabilidade maior diante deles. Porque, se a vida venceu, então toda forma de morte, seja física, social ou relacional, precisa ser enfrentada.
Há, também, um aspecto fundamental: a ressurreição não se impõe de maneira espetacular. Ela se manifesta de forma discreta, no encontro, no reconhecimento, na reconstrução dos vínculos. Isso exige sensibilidade. Em uma realidade marcada pelo excesso de informações e pela necessidade constante de evidências, reconhecer os sinais da vida nova se torna um desafio.
A Páscoa, portanto, não é apenas celebração; é critério. Ela nos pergunta, de forma direta: como estamos vivendo? Nossas escolhas geram vida ou reforçam aquilo que já está ferido? Nossas atitudes constroem ou apenas reproduzem a lógica da indiferença?
Entre a cruz e a ressurreição, há um caminho que não pode ser ignorado. E o Domingo de Páscoa não nos permite permanecer no mesmo lugar. Ele nos desloca. Nos convida a sair de uma fé acomodada para uma fé comprometida com a transformação da realidade.
Porque, no fim, a ressurreição não é apenas algo que aconteceu com Cristo. É uma possibilidade que se abre para o mundo, e que começa, concretamente, na forma como escolhemos viver a partir dela.
*Escrito por Robson Ribeiro – Teólogo e Filósofo
A paz não é utopia, mas escolha. Ela exige coragem para reconhecer a dignidade do outro, disposição para o diálogo e compromisso com a justiça. Nesse sentido, a fé cristã não pode ser neutra: deve posicionar-se claramente contra toda forma de violência e a favor da vida.
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