Por A redação
A missão não começa na Igreja. Ela começa em Deus. Essa é uma das ideias centrais apresentadas pelo padre Stefano Raschietti no Simpósio Internacional Missiológico, realizado no Chile, ao refletir sobre a passagem da Missio Dei à Missio Ecclesiae: da missão de Deus à missão da Igreja.
A afirmação pode parecer simples, mas traz consequências profundas para a maneira como compreendemos nossa presença missionária no mundo. Inspirado no teólogo Jürgen Moltmann, o padre Stefano retoma uma expressão muito significativa: “não é a Igreja que tem uma missão, mas a missão que tem uma Igreja”. Isso significa que a Igreja não é proprietária da missão nem pode reduzi-la a um projeto institucional. Ela é chamada a participar daquilo que Deus já está realizando no mundo.
A missão tem sua fonte no próprio Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai envia o Filho e o Espírito Santo ao encontro da humanidade. A Igreja, portanto, nasce e caminha dentro desse movimento de amor.
Essa compreensão recupera uma antiga tradição da Igreja, presente nos primeiros teólogos cristãos e desenvolvida ao longo da história. No século XX, depois das grandes crises provocadas pelas guerras, pelos totalitarismos e pelo fim do modelo colonial, essa visão foi retomada e ganhou novo impulso. A Conferência Missionária de Willingen, em 1952, e os estudos posteriores sobre a Missio Dei ajudaram a consolidar uma compreensão mais trinitária e centrada no Reino de Deus.
O Concílio Vaticano II acolheu essa perspectiva no decreto Ad Gentes, ao afirmar que a Igreja peregrina é “por sua própria natureza missionária”. A missão, portanto, não é uma atividade entre tantas outras da Igreja. Ela pertence à sua própria identidade.
Essa mudança de perspectiva pede também uma mudança de atitude. Se Deus já está atuando na história, a Igreja precisa aprender a escutar, discernir e reconhecer onde o Espírito está agindo.
Isso exige despojamento e humildade. Antes de chegar com respostas prontas, a Igreja é chamada a perceber os sinais de Deus presentes nas pessoas, nas comunidades e nas diferentes realidades humanas. O Espírito Santo não começa a agir quando chega um missionário, um padre ou uma estrutura eclesial. Deus já está presente e atuante na história.
Por isso, evangelizar não significa simplesmente levar Deus para onde supostamente Ele não estaria. Significa cooperar com aquilo que Deus já está realizando, anunciando Jesus Cristo e ajudando a reconhecer os sinais do Reino no meio da vida.
A reflexão apresentada no simpósio também chama atenção para um equilíbrio necessário. Compreender a missão como participação na ação de Deus não significa transformar a evangelização apenas em ação social.
O compromisso com a justiça, com a vida, com os pobres e com o cuidado da criação faz parte da missão cristã. Mas esse compromisso não substitui o anúncio do Evangelho. A missão mantém sua referência fundamental em Jesus Cristo, em sua vida, morte e ressurreição.
O desafio está justamente em manter unidos o anúncio da fé e o compromisso concreto com a vida. Nem uma evangelização desligada das realidades humanas, nem um ativismo social que deixe de lado a centralidade do Evangelho.
Que Igreja é necessária para essa missão? A resposta passa por uma Igreja em saída, capaz de caminhar com as pessoas, especialmente com aquelas que vivem situações de vulnerabilidade.
A missão pede proximidade, escuta e disposição para aprender. Pede uma Igreja que não fique fechada em suas próprias certezas, mas que se deixe surpreender pela ação do Espírito Santo.
Nesse caminho, a sinodalidade assume grande importância. Caminhar juntos significa reconhecer que todos podem contribuir para a missão e que a Igreja é chamada a estar presente nas fronteiras humanas e geográficas, onde estão as pessoas feridas, esquecidas e vulnerabilizadas.
Assim, a missão não se reduz a organizar atividades pastorais. Ela é um modo de ser Igreja: sair de si, encontrar as pessoas, escutar suas histórias, anunciar Jesus e cooperar com Deus na construção de uma vida plena.
A reflexão do padre Stefano Raschietti oferece uma provocação muito atual às nossas comunidades: não somos nós que damos uma missão a Deus; somos nós que recebemos de Deus o convite para participar de sua missão.
Isso muda o modo de planejar, evangelizar e estar presente no mundo. Em vez de perguntar apenas “o que a Igreja precisa fazer?”, somos convidados a perguntar: “Onde Deus já está agindo? O que o Espírito está suscitando? Como podemos colaborar com essa ação?”
Uma Igreja missionária é aquela que aprende a caminhar com Deus e com as pessoas. É uma Igreja que não busca apenas preservar suas estruturas, mas se coloca a serviço da vida e do Reino.
Como recorda o próprio caminho proposto pelo Simpósio Missionológico, a missão nos chama à escuta, à ternura, à proximidade e à coragem de atravessar fronteiras. Afinal, evangelizar é cooperar com o Deus que, em Jesus Cristo, caminha junto com a humanidade.
Fonte: Pontifícias Obras Missionárias, “Não é a Igreja que tem uma missão, mas a missão tem uma Igreja”, 26 de setembro de 2026. Leia o texto original na POM
A missão não começa na Igreja. Ela começa em Deus. Essa é uma das ideias centrais apresentadas pelo padre Stefano Raschietti no Simpósio Internacional Missiológico, realizado no Chile, ao refletir sobre a passagem da Missio Dei à Missio Ecclesiae: da missão de Deus à missão da Igreja.
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