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Transe democrático: “Enquanto a extrema-direita for viável, eleições terão risco de desconstrução da ordem”

Por Luis Felipe Miguel

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Luis Felipe Miguel analisa as engrenagens desse novo autoritarismo e defende que a superação da crise exige mais do que soluções conjunturais ou a emulação de métodos da extrema-direita. A reconstrução do horizonte democrático passa por “trabalhar para construir uma consciência mais aprofundada dos problemas que enfrentamos – e também oferecer alternativas reais, não apenas remendos, alternativas que sejam capazes de capturar a imaginação das pessoas, dotá-las de esperança, envolvê-las em um projeto de transformação real da sociedade”, aponta. 

IHU – Ao tomar conhecimento do seu livro Democracias em crise, teorias em transe (Editora Autêntica, 2026), de que falaremos adiante, lembrei da cena de Terra em transe, de Glauber Rocha, em que Porfírio Diaz (personagem de Paulo Autran) proclama: “Dominarei esta terra! Botarei essas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força! Pela harmonia universal dos infernos! Chegaremos a uma civilização!”. Parto do caráter, certo sentido, profético do filme, para a primeira pergunta: vivemos hoje uma democracia em transe? Se sim, de que ordem? Se não, por quê? 

Luis Felipe Miguel – Vivemos uma situação em que os códigos e os rituais que eram aceitos como sendo a realização da democracia foram colocadas em xeque. O aspecto mais evidente disto é contestação do processo eleitoral, o que se percebe em Donald Trump ou, aqui no Brasil, nos Bolsonaro. Mas essa é apenas a expressão final de algo que está na raiz deste renovado autoritarismo atual, que é a oposição ao princípio democrático básico de que a divergência não pode ser sufocada. Como disse um filósofo político do século XX, Claude Lefort, “o gesto inaugural da democracia é o reconhecimento da legitimidade do conflito”. Quando o conflito não é aceito como legítimo, quando a discordância é enquadrada como abominação, enveredarmos para o vale tudo, em que qualquer arma pode ser usada para aniquilar o adversário.

A política nunca foi pura, não é de sua natureza ser pura, mas hoje temos os recursos à mentira, à violência, à fraude, à intimidação, sendo exibidos sem nenhum pudor por determinados agentes políticos e aplaudidos por sua base. A democracia liberal que está em crise sempre teve muitos problemas, sempre ficou muito aquém do ideal democrático, exatamente por sua necessidade de se acomodar aos padrões de dominação vigentes na sociedade, a começar pelo capitalismo. Mas cumpria ao menos os papéis de disciplinar a expressão do antagonismo político, civilizando-o, e de dar um espaço para a voz dos grupos dominados. É isso, o cumprimento desses dois papéis, que está muito mais difícil na situação atual. 

IHU – Donald Trump, a despeito de sua desqualificação técnica e moral, foi eleito duas vezes presidente dos Estados Unidos, um país cuja democracia era propagandeada como modelo global. Como compreender este fenômeno do ponto de vista da ciência política? 

Luis Felipe Miguel – A gente gosta de dizer que o avanço desta nova extrema-direita, com líderes do calibre de Trump, Bolsonaro ou Milei, não se explica pela Ciência Política, só pela psiquiatria..., mas é claro que isso é uma boutade. Embora o fenômeno seja complexo, creio que qualquer explicação deve incluir pelo menos três elementos principais.

O primeiro é a baixa educação política da cidadania. Nossas democracias concorrenciais apostavam numa participação política mínima, restrita ao momento eleitoral. Durante o resto do tempo, os cidadãos deviam se limitar a obedecer, vivendo a vida de todos os dias sob estruturas basicamente autoritárias, na empresa, na escola, na família. A baixa qualificação política, fruto de uma estrutura que privilegia os cidadãos passivos, torna-os mais vulneráveis a discursos demagógicos, manipulativos, mentirosos.

O segundo elemento é o fato de que, sobretudo a partir dos últimos anos do século passado, com o triunfo de um ordenamento neoliberal que levou à retração das políticas de pacificação social (as políticas de bem-estar e de proteção aos trabalhadores e aos mais pobres) e à ampliação das desigualdades sociais, os regimes democráticos passaram a oferecer resultados cada vez menos positivos para a maioria da população. Políticas de austeridade, impostos pelo mundo afora, fazem com que o Estado opere como uma espécie de Robin Hood às avessas, cobrando impostos dos pobres para remunerar os investimentos dos ricos. Pela primeira vez desde o pós-guerras, mesmo nos países ricos a expectativa é de que os filhos levem uma vida mais difícil do que seus pais. Com isso, discursos antissistêmicos, mesmo que superficiais ou hipócritas, passaram a ter um grande potencial de sucesso junto ao público.

Por fim, temos um novo ambiente de comunicação, com declínio da legitimidade de discursos antes providos de autoridade, como o da ciência ou o do jornalismo profissional. Com isso, quem tem os meios para difundir suas mensagens neste novo ambiente parte com vantagem. É possível patrocinar os maiores absurdos praticamente sem constrangimento nenhum. A extrema-direita soube aproveitar esse momento, adotando uma estratégia de comunicação baseada em inverdades, que é imoral, contraditória com qualquer projeto democrático, pois a democracia exige um público informado, mas muito eficaz. 

IHU – Pela primeira vez, desde o pós-Guerra, um partido de extrema-direita vence uma eleição regional na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD). O que isso significa e quais as consequências?

Luis Felipe Miguel – As vitórias da AfD têm caráter simbólico, por sua filiação neonazista indisfarçável e por ser na Alemanha, obviamente. Mas creio que o fundamento é o mesmo do que ocorreu em outros lugares. A reunificação da Alemanha foi comemorada como uma grande vitória da democracia, mas ocorreu no mesmo tempo do desmonte paulatino do sistema de bem-estar social, com o avanço das políticas neoliberais. A população da Alemanha oriental, depois de passar a embriaguez dos novos padrões de consumo, se viu numa situação de redução do seu poder aquisitivo, de depreciação do seu padrão de vida, com a retração dos serviços socializados fornecidos pelo antigo regime, de desemprego crescente. Por isso, tornou-se o alvo mais fácil para a demagogia da extrema-direita. A base sobre a qual repousa o apoio aos neonazistas é real: a insatisfação com uma democracia que entrega muito pouco para as pessoas mais vulneráveis.

IHU – A reeleição de Trump, a ascensão da extrema-direita na América Latina, o caso da AfD na Alemanha e tantos outros exemplos são a pá de cal na cauda longa das democracias liberais? 

Luis Felipe Miguel – Não sei se podemos falar em “pá de cal”, mas certamente o modelo mostra dificuldades crescentes para se reproduzir. A democracia é fruto das lutas dos grupos dominados para terem voz nos processos de tomada de decisão – as lutas da classe trabalhadora, em primeiro lugar. Embora um discurso da esquerda costume falar em “democracia burguesa”, a democracia nunca foi o projeto da burguesia. Conforme os setores populares foram perdendo força, as classes dominantes julgaram que tinham condições de reduzir o espaço da democracia. O novo ambiente de comunicação, com a facilidade para a disseminação de falsidades e para poluir o debate público com questões derivativas ou irrelevantes, também colabora para essa situação.

O modelo de democracia concorrencial presumia que uma combinação entre participação política mínima e informação política mínima seria capaz, ainda assim, de alcançar decisões minimamente razoáveis. Hoje não é mais assim. Está ficando cada vez mais claro que, para uma retomada democrática, será necessário construir instituições mais participativas e avançar mais na qualificação política da cidadania. 

IHU – Nos EUA, a suprema corte abriu mão de punir eleitoralmente Donald Trump por seus crimes. No Brasil, Bolsonaro teve menos sorte. Mas tanto lá como cá o trumpismo e o bolsonarismo continuam sendo forças políticas relevantes. Como compreender esses fenômenos e seria o caso pensar que este fenômeno veio para ficar? Como classificá-lo? 

Luis Felipe Miguel – Sim, temos que entender que a extrema-direita está aí para ficar, logo temos que procurar estratégias de longo prazo para lidar com ela. Não adianta sonhar com uma “bala de prata”, algo que vai liquidá-la de uma só vez. Uma parte do problema é que ela foi naturalizada, aceita como uma participante normal do jogo democrático, quando de fato não é. Assim, no Brasil, políticos oportunistas se aliam a Bolsonaro ou mesmo adotam um discurso similar ao dele, sem que isso os comprometa como interlocutores de setores comprometidos com a democracia. Está aí o governo Lula, compondo com o Centrão, por realismo político, que corrobora o que estou dizendo.

Nos Estados Unidos, o partido republicano se rendeu quase sem luta a Donald Trump. Na Europa, partidos conservadores tradicionais estão cada vez mais aceitando se aliar a extremistas de direita para obter maiorias parlamentares, até mesmo na França, onde durante muito tempo imperou um cordão sanitário que isolava o Front National, hoje Rassemblement National.

Não tenho nenhuma receita sobre como fazer este combate, mas com certeza ele passa por uma formação política popular de maior qualidade. Ao contrário do que dizem algumas vozes dentro da própria esquerda, não creio que a questão seja encontrar meios de copiar a comunicação da extrema-direita, com sua hipersimplificação e agressividade. Isso pode render frutos ou mesmo ser necessário em situações pontuais, mas a médio e longo prazos não resolve o problema. Pelo contrário, alimenta a espiral de uma política feita de mistificações que mascaram as questões reais.

É preciso trabalhar para construir uma consciência mais aprofundada dos problemas que enfrentamos – e também oferecer alternativas reais, não apenas remendos, alternativas que sejam capazes de capturar a imaginação das pessoas, dotá-las de esperança, envolvê-las em um projeto de transformação real da sociedade. O drama do momento atual é que este é uma tarefa de médio e longo prazo, ao passo que parece que temos que mobilizar todas as nossas energias para evitar o desastre no presente. 

IHU – No Brasil há um fenômeno aparentemente paradoxal, na medida em que poderia ser compreendido como um aspecto de mais democracia e transparência, a saber: a maior exposição da atividade parlamentar. Contudo, como esse fenômeno se converte no Brasil em mais tensão democrática? Por que e como isso ocorre?

Luis Felipe Miguel – Se apenas existe transparência, mas as pessoas não detêm as ferramentas para entender o trabalho parlamentar, o resultado vai ser um jogo de cena permanente. Vemos deputados, senadores, até mesmo ministros do Supremo falando para a plateia, enquanto as decisões são tomadas mesmo nos bastidores, longe dos olhos do público. Rivalidades e agressividade são transformadas para garantir a adesão emocional dos seguidores. 

A transparência precisa ser combinada com a capacidade do público de conectar discursos e decisões. Hoje, os políticos gastam o tempo fazendo lives para suas redes, exibem o que seria o seu dia a dia, exibem o que seriam os bastidores, mas a manipulação é cada vez maior. Sem educação política, a transparência se transforma facilmente em mero espetáculo. 

IHU – Como a literatura da ciência política tem compreendido esses fenômenos? Até que ponto a realidade consegue ser explicada pelas categorias, digamos assim, clássicas ou consolidadas da ciência política e a partir de que ponto precisamos construir um novo léxico conceitual para descrever a realidade? 

Luis Felipe Miguel – Como todo fenômeno novo, nós encontramos chaves explicativas no acúmulo de conhecimento já existente, mas também chegamos a pontos que exigem novos desenvolvimentos teóricos e conceituais. Por exemplo, até o final do século XX era certo que o discurso político buscava exibir marcas de distinção em relação ao público, uma maior sofisticação, ainda que apenas de fachada, que marcaria a competência superior do candidato a ocupar uma posição de poder. Hoje, muitos têm êxito exibindo abertamente sua falta de qualificação. São necessários novos modelos para entender este fenômeno.

Outro exemplo é como definir esta nova extrema-direita e como relacioná-la com o fascismo histórico, da primeira metade do século passado. Existem muitos pontos de contato, como a retórica da violência, o desprezo por políticas sociais em defesa dos “fracos“, o machismo e o racismo (às vezes latentes, às vezes explícitos), o personalismo da liderança, a visão do mundo social como uma selva em que todos competem contra todos, a fusão entre um discurso antielitista e a defesa de políticas (econômicas, fiscais) que objetivamente favorecem uma minoria. Mas também existem muitas diferenças, como a menor coerência das organizações político partidárias ou, em casos como o brasileiro, a ausência de um sentimento nacionalista real.

Se exigirmos que um movimento gabarite todos os aspectos do fascismo de Mussolini ou de Hitler para receber a qualificação, teremos que reservá-lo apenas para aquele momento histórico. Mas se tudo que é autoritário ou elitista vira fascismo, como transparece, por exemplo, nas reflexões mais recentes de Vladimir Safatle, o conceito perde precisão, torna-se uma generalidade inútil para o trabalho científico. Então os pesquisadores se debatem com esse problema, buscando caminhos diferentes.

O historiador italiano Enzo Traverso sugere o termo “pós-fascismo”, que indica tanto continuidade quanto descontinuidade. É uma solução provisória, enquanto não somos capazes de fechar uma compreensão de um fenômeno que não apenas é recente como continua se metamorfoseando diante de nossos olhos. 

IHU – Vivemos há alguns pleitos presidenciais “a eleição da nossa vida”, como se estivéssemos ante o último passo ao desfiladeiro. Parece que sempre estamos diante da escolha entre civilização e barbárie. O que há de verdadeiro e falso nessa impressão? Como o senhor avalia o pleito de outubro?

Luis Felipe Miguel – É próprio dos processos eleitorais que eles se apresentem sob uma perspectiva agonística, como se a cada vez tivéssemos uma questão de vida e morte à nossa frente. É uma questão de lógica; não interessa aos candidatos que os eleitores se percebam diante de uma escolha banal, seis ou meia dúzia. Mas, reconhecendo este fato, podemos dizer que algumas eleições são mais decisivas do que outras. 

Não há dúvida de que em 2018 tivemos uma escolha repleta de consequências. O golpe de 2016, contra a presidente Dilma Rousseff, já marcara uma ruptura no experimento democrático que o Brasil iniciou após o fim da ditadura militar. Aquela eleição já indicava, de cara, uma escolha importante: se iríamos aprofundar esta ruptura, com a escolha de alguém da coalizão golpista, ou tentar revertê-la. Quando Bolsonaro superou os postulantes da direita tradicional e se colocou como o principal opositor do PT, a escolha ficou mais dramática ainda. Sabemos o que aconteceu, o custo do seu mandato presidencial em termos da regressão geral do país, o custo contado em milhares de vidas, no desmonte dos programas do governo federal, nos ataques às instituições democráticas.

Em 2022, o cenário se repetiu, felizmente com resultado diverso, e se repete novamente agora em 2026. Enquanto a extrema-direita for uma opção viável, enquanto ela tiver chance de chegar ao poder, teremos eleições com consequências mais extremas. Serão eleições que carregam o risco de desconstrução da ordem democrática, das regras básicas da democracia eleitoral e da separação de poderes, e isso não é nada banal. 

IHU – É possível o Brasil resistir à ofensiva autoritária dos EUA? Como? 

Luis Felipe Miguel – A resistência no Brasil é dificultada pelo fato de que temos tantos agentes políticos importantes que atuam deliberadamente como cúmplices da investida estadunidense contra nós. Isso inclui parlamentares, grupos empresariais, autoridades do Poder Judiciário, chefes militares.

Ao mesmo tempo, o Brasil é um país grande em território, em população, em recursos naturais, em mercado interno. Como disse o presidente Lula em seu discurso nas Nações Unidas, o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Isso dá condições para resistir. Caso tivéssemos uma elite política com um pouquinho mais de sentido de nacionalidade, teríamos avançado mais, em frentes como a regulação das plataformas sociodigitais, que é um dos espaços centrais para defesa da soberania. Mas, pesado tudo o que está na balança, o Brasil não tem se saído tão mal nesse quesito, até agora. Mas, claro, o resultado da eleição vai dizer como será no futuro.

IHU – O senhor é organizador, junto com Luciana Ballestrin, do livro Democracias em crise, teorias em transe. Poderia falar um pouco mais sobre como é composta a obra, seus autores e temas? 

Luis Felipe Miguel – É uma coletânea de textos de pesquisadores importantes, de diferentes universidades brasileiras, que discutem este momento a partir de diferentes perspectivas, mas tendo em comum a compreensão de que existe uma interconexão entre a crise da democracia e o esgotamento das teorias democráticas até então dominantes na Ciência Política. Teorias que tendiam a subestimar o problema da compatibilização entre um regime político democrático, isto é, que afirma a igualdade entre todos seus cidadãos, e a permanência de profundas desigualdades na sociedade. Assim, o casamento entre democracia e capitalismo, que sempre foi uma relação abusiva, era naturalizado, considerada uma questão que não merecia maior reflexão. Os capítulos do livro tratam do tema sob diferentes perspectivas, a partir de diferentes referenciais teóricos e recortes históricos e geográficos, alguns mais focados no caso brasileiro, outros menos. 

* Luis Felipe Miguel é professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e pesquisador do CNPq. Publicou, entre outros, os livros Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Dominação e resistência (Boitempo, 2018), Democracia na periferia capitalista (Autêntica, 2022) e Marxismo e política: modos de usar (Boitempo, 2024). 

Fonte: IHU

 

 

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