Por Irmã Eurides Alves de Oliveira, ICM
Nas últimas semanas, presenciamos e sentimos em nossos corpos a dor de várias companheiras que foram barbaramente violentadas e/ou assassinadas, só pelo fato de serem mulheres em várias partes do Brasil. Em Florianópolis-SC, uma jovem de 31 anos foi estuprada e estrangulada quando se dirigia para uma aula de natação. Em Jaborandi, na Bahia, outra mulher, de 27 anos, foi arrancada do banho e assassinada a tiros pelo ex-namorado. Em Recife-PE, uma mãe de 40 anos e seus quatro filhos, entre 1 e 7 anos, foram carbonizados pelo marido. Na Zona Norte do Rio, um servidor público matou a tiros uma professora e uma psicóloga no Centro Federal de Educação Tecnológica – Cefet. Em São Paulo, uma mulher foi morta na pastelaria onde trabalhava pelo ex-marido, e uma jovem foi atropelada e, ainda presa no veículo, arrastada pela rua. Ela teve as pernas amputadas e foi internada em estado grave. No Distrito Federal, uma mulher de 25 anos, Cabo do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, foi morta a facada e seu corpo queimado no incêndio provocado em unidade do Exército, por um soldado (…).
Estes casos, fatos e inúmeros outros, se inserem no computo das inaceitáveis estatísticas divulgadas nos últimos meses. O Mapa Nacional da Violência de Gênero, aponta que de janeiro a outubro de 2025, foram registrados mais de mil feminicídios no país, afirmando que quatro mulheres são vítimas de feminicídio por dia no Brasil. O Observatório da Mulher Contra a Violência do Senado, registra 33.999 estupros contra mulheres de janeiro a junho, uma média de 187 por dia. A violência contra a mulher também bate recorde na internet. O DataSenado revela que uma em cada dez mulheres com 16 anos ou mais, sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses. Sem negligenciar as subnotificações, que por vezes são maiores que os casos notificados.
Esta explosão no número de feminicídios e o abrangente leque de violências de gênero não é um ponto fora da curva, mas a evidência de uma epidemia de violências contra as mulheres, resultado de séculos de brutalidade sociocultural misógina, sustentada pelo patriarcado, causa estrutural e sistêmica, dessas recorrentes práticas. Urge compreender sua causa estrutural para denunciar e enfrentar esse sistema, desconstruindo em mulheres e homens, esta lógica perversa que oprime, violenta e mata.
O patriarcado, associado ao capitalismo depredador, é um sistema social firmado no poder-dominação dos homens sobre as mulheres, conferindo-lhes poder e controle sobre a vida e os corpos das mulheres. Isso resulta em desigualdades de gênero e na legitimação da violência contra as mulheres, incluindo o feminicídio, que é o assassinato de mulheres devido ao seu gênero. É uma lógica de poder que atravessa séculos, instituições, discursos religiosos, práticas culturais e estruturas econômicas. Sua perversidade está na capacidade de transformar desigualdade em “ordem natural”, violência em “correção”, silenciamento em “virtude” e submissão em “vontade de Deus”.
O patriarcado é perverso porque desumaniza, reduzindo mulheres, e tudo o que é associado ao feminino, a objetos de controle e domínio. Ele cria hierarquias rígidas e opressoras: entre homens e mulheres, entre quem manda e quem obedece, entre quem ocupa o centro e quem é empurrado às margens. Legitima o controle sobre o corpo feminino através de ciúmes doentios disfarçados de cuidado, pseudo direito de posse e vigilância da vida social das mulheres são práticas normalizadas e naturalizadas culturalmente. É perverso porque reproduz a violência estrutural e cotidiana: assédios, estupros, violências múltiplas, misoginia e feminicídios (…) A violência patriarcal, mesmo quando não mata, fere as subjetividades, corrói a autoestima e cerceia a liberdade, o poder das mulheres. É perverso porque feminiza a pobreza, colocando as mulheres nas linhas de frente da precarização do trabalho, do cuidado não remunerado, da sobrecarga emocional e da vulnerabilidade socioeconômica.
O patriarcado é ainda religiosamente perverso porque deforma as imagens de Deus, quando sustenta leituras religiosas que legitimam o controle, a obediência cega, o autoritarismo masculino e o silêncio das mulheres. O patriarcado espiritualizado, torna-se como define Elisabeth Schüssler Fiorenza, num “kyriarcado’ que faz de Deus um soberano dominador, e não um Deus que libera, cura e convoca à igualdade radical do Reino de Deus, que consiste nas relações de discípulas e discípulos iguais. Faz da religião um sistema complexo e multifacetado de sustentação da dominação sexista.
No entanto, o patriarcado é um sistema que pode ser desconstruído. Ele se sustenta em três pilares: dominação, silêncio e medo. Este tripé começa a ruir quando surgem vozes proféticas, quando mulheres e homens se levantam para denunciar a violência, propor novas relações e tecer práticas de cuidado, justiça e reciprocidade. Do ponto de vista ético e espiritual, o feminicídio produzido pelo patriarcado é a negação radical da dignidade humana, é pecado social, fruto de estruturas que precisam ser nomeadas, denunciadas e transformadas.
Desconstruir o patriarcado é ato espiritual, político e ético e, no horizonte cristão, é missão profética. Portanto, pelo sangue derramado e pela vida das mulheres que lutam todos os dias para continuarem vivas, nossas comunidades são convocadas a romper o silêncio, a tolerância e enfrentar com ousadia e verdade essa realidade para transformar. Não basta ficarmos horrorizadas/os com as notícias e os dados estatísticos sobre os feminicídios e outras formas de violências contra as mulheres. É necessário radicalizar a luta contra o patriarcado e desenvolver iniciativas e processos que o desmonte: mudança de práticas relacionais autoritárias, educação de gênero e contra as violências em todos os espaços, desconstrução das masculinidades tóxicas e violentas, comunidades que escutem, apoiem e protejam as mulheres, mobilizar-se e lutar por políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção eficaz às mulheres em situação de violência; cultivo de espiritualidades que afirmem a equidade e igualdade de gênero e o protagonismo feminino, incidência política para maior efetividade no cumprimento das leis e punição mais severa para os agressores, dentre outras.
A perversidade do patriarcado é um “monstro grande que pisa forte”, mas, maior é a força das mulheres que resistem e das comunidades que se convertem e decidem atuar juntos e juntas, homens e mulheres contra suas manifestações de dominação e violência, construindo uma sociedade onde mulheres e homens sejam tratados como filhos e filhas de Deus, em igual dignidade e direitos.
Fonte: Portal das CEBs
[Ir. Eurides] O patriarcado é um sistema que pode ser desconstruído. Ele se sustenta em três pilares: dominação, silêncio e medo. Este tripé começa a ruir quando surgem vozes proféticas, quando mulheres e homens se levantam para denunciar a violência, propor novas relações e tecer práticas de cuidado, justiça e reciprocidade. Do ponto de vista ético e espiritual, o feminicídio produzido pelo patriarcado é a negação radical da dignidade humana...
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