Por IHU
O economista e pesquisador Guy Standing, da SOAS University of London, concedeu uma entrevista publicada em 13 de janeiro que tem repercutido em debates sobre política contemporânea e desigualdade econômica. Standing, conhecido por introduzir o conceito de precariado — uma nova classe social marcada pela insegurança no trabalho e instabilidade — analisa criticamente a atual proliferação de discursos de extrema-direita e sua função política no mundo contemporâneo.
Em entrevista à El Mundo traduzida para o português, o economista britânico Guy Standing afirma que a ascensão da extrema-direita não responde aos anseios da maioria da população e serve para desviar a atenção dos problemas estruturais do capitalismo rentista, enquanto a classe média desaparece e o precariado cresce globalmente.
Segundo o especialista, a extrema-direita de hoje atua mais como “cortina de fumaça da plutocracia” do que como uma alternativa real para os milhões de pessoas que vivem em condições precárias. Para ele, líderes e movimentos de extrema-direita tentam convencer o precariado de que suas dificuldades advêm de outros grupos igualmente desfavorecidos — como migrantes ou minorias — desviando o foco das causas estruturais da desigualdade: o capitalismo rentista e a concentração de riqueza nas mãos de poucos.
Standing explica que o precariado é um grupo diversificado que substituiu quase totalmente a antiga classe média em muitas sociedades. Ele é composto por três segmentos: os “Atávicos”, ligados às tradições industriais e frequentemente receptivos a propostas populistas de direita; os “Nostálgicos”, muitas vezes migrantes ou sem pertencimento claro; e os “Progressistas”, uma parcela mais educada que busca mudanças estruturais profundas. Embora compartilhem condições objetivas — insegurança de renda, falta de estabilidade e direitos — esses grupos ainda não formaram uma consciência política comum.
Em sua crítica, Standing aponta que o discurso de extrema-direita falha ao atribuir ao precariado a responsabilidade pelos próprios problemas e, ao fazê-lo, serve aos interesses de uma classe plutocrática global que extrai renda e poder por meio de sistemas financeiros e de propriedade concentrados. Ele desafia a narrativa simplista de que partidos ou líderes populistas sejam defensores dos trabalhadores, lembrando que figuras como Donald Trump ou grandes bilionários tecnológicos não representam os interesses da maioria.
O economista também alerta que indicadores econômicos tradicionais, como o crescimento do PIB, têm pouco impacto real na melhoria das condições de vida do precariado, uma vez que a riqueza gerada tende a se concentrar na elite. Para Standing, isso requer repensar não apenas políticas econômicas, mas a própria maneira como concebemos o desenvolvimento e a distribuição de recursos sociais.
Como alternativa, ele defende a implementação de políticas estruturais de proteção social, como a renda básica universal — entendida como um direito de cidadania que redistribui a riqueza coletiva — e a recuperação de bens comuns, como a educação pública. Essa perspectiva, segundo Standing, poderia oferecer respostas mais eficazes às necessidades de segurança econômica e bem-estar social do precariado do que as propostas simplistas da extrema-direita ou a política tradicional que deixou muitos à margem.
Veja a matéria: “A extrema-direita atual é uma cortina de fumaça da plutocracia”. Entrevista com Guy Standing
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