Por Denilson Mariano
A Carta aos Romanos nos recorda que pela graça de Deus, o cristão é libertado da lei e do pecado (Rm 7,1-25), a proposta da Carta à comunidade de fé é a vida nova no Espírito (Rm 8,1-39). Quem é batizado vive (deve viver) segundo o espírito (Rm 8,4) e não segundo a carne. Há uma oposição entre espírito e carne. “Carne” significa viver dentro do espírito da mentalidade da época (dominado pelo “pecado estrutural”), segundo a cultura greco-romana, com atitudes opostas ao Plano de Deus: na idolatria. Importa lembrar que carne não significa corpo, mas pecado, violência, exploração, mentira, escravidão.
O amor é o critério da vida em comunidade
O Espírito Santo conduz a pessoa batizada a viver no Espírito, de acordo com a vontade de Deus. A vida no espírito é a vida dos que agora são filhos/as de Deus em Jesus Cristo (Rm 8,15). Por meio do batismo, Cristo vive e reina nos que foram batizados. Somos convidados a adotar o mesmo pensamento, o mesmo modo de viver e agir de Jesus. Passar a ter uma nova relação com Deus e traduzir isso em atitudes práticas, na vida em comunidade, na busca da paz, da fraternidade, da justiça, da solidariedade. O amor se converte no critério da vida em comunidade.
Em Rm 9,1–11, o autor da Carta trata do relacionamento entre judeus e cristãos. Os gentios também recebem essa misericórdia (9,30–10,13). Se Israel não aceitou o Evangelho, não significa que Deus haja rejeitado Israel (Rm 10,14–11,10). Mas os gentios são chamados para que Israel desperte e também acolha a salvação (Rm 11,11-15). Israel é a raiz histórica da salvação, e os gentios são os frutos que se alimentam dessa raiz (Rm 11,16-36).
A Carta aos Romanos tenta iluminar uma tensão que estava presente na comunidade: a ação da graça de Deus e o esforço humano no processo da salvação. A Carta salienta que, com a graça, o pecado não tem mais poder sobre aquele que é batizado, pois passa a ser guiado pelo Espírito. E, com a vinda de Jesus, a Lei já cumpriu a sua função e já não rege a vida dos filhos e filhas de Deus que, de agora em diante, pautam seu modo de ser e de agir em Jesus Cristo. Jesus não vem ao mundo para expiar o pecado da humanidade, nem por causa dele; Jesus vem para revelar o amor do Pai e libertar os filhos de toda espécie de mal, de todo o pecado, e atestar que a vida tem sempre a última palavra, e o amor vencerá (Rm 8,18-30). Em Jesus se dá uma nova criação — redimida — e uma nova humanidade (Rm 8,28-30). Deus espera apenas que seu amor seja acolhido, pois Ele é amor, que nos foi revelado em Jesus Cristo, e nada nos poderá separar desse amor de Deus (Rm 8,39).
Nada nos pode separar do amor de Cristo
A vida nova no Espírito nos faz mais fortes que toda forma de mal e pecado: “Se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm 8,31). Por isso, “nada nos poderá separar do amor de Deus” (Rm 8,39). Viver no Espírito é abrir-se à esperança, é “ousar sonhar” um mundo novo a partir do Evangelho. Cabe a nós deixar-nos guiar pelo Espírito de Deus (Rm 8,14). O amor de Deus, derramado em nós desde o batismo, nos faz participantes da vida nova em Cristo. Não temos nada a temer: nem as dificuldades, nem as forças do mal, nem as perseguições, nem o martírio. Somos defensores das causas do Reino, que são causas invencíveis: “em todas essas coisas somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou” (Rm 8,37).
Naquela época, em Roma, a grande capital do Império Romano, os cristãos viviam um contexto de perseguição. Ser cristão era tão arriscado que poderia dar cadeia ou morte. Daí a insistência na Carta para que os seguidores de Jesus tivessem um comportamento digno, condizente com a situação de quem deve estar pronto, a qualquer momento, para um encontro definitivo com Deus. Enfrentar o Império não era apenas enfrentar as autoridades, mas também todo o sistema de vida: a ideologia, a religião nas cidades, as instituições. Era uma cidade dominada por um pecado estrutural e os cristãos não podiam amoldar-se àquela situação.
Não se amoldar às estruturas do mundo
A Carta indica uma clara interação entre a fé em Jesus Cristo e a dimensão ética do cristão. O encontro com Cristo, iniciado no batismo e cultivado na leitura da Palavra, nas orações, nos cultos e encontros da comunidade, devia ser acompanhado de uma atitude constante de não amoldar-se ao mundo, não ceder diante daquilo que contrariava os ensinamentos de Jesus. O discípulo de Jesus Cristo não podia acostumar-se com a injustiça, a opressão, a violência, a exploração... devia transformar-se à luz do Evangelho (Cristo) e buscar a vontade de Deus: o que de fato era bom, agradável e perfeito (Rm 12,2).
O agir cristão exigia, e ainda exige, o discernimento da vontade de Deus. O Papa Francisco nos deixou um legado sobre o discernimento, que ele via como algo essencial para a vida cristã. Discernir é aprender a escutar Deus no meio da confusão da vida, para tomar decisões com sabedoria e com o coração aberto ao Espírito Santo. Recordemos o que ele nos deixou na sua carta sobre o chamado à santidade no mundo atual:
Em resumo, a Carta nos aponta as linhas mestras do agir cristão na comunidade, que deve ser força de transformação para todos os espaços onde vivemos. Um amor sincero, sem hipocrisia, sem falsidades (Rm 12,9), capaz de incluir a todos: “todos, todos, todos”. Que sejamos capazes de abençoar os que nos perseguem, ser solidários com os que sofrem, viver em harmonia, sem espírito de grandeza, fazendo o bem a todos, “não nos deixando vencer pelo mal, mas vencendo o mal pelo bem” (Rm 12,21). Assim, seremos um em Cristo Jesus.
Para Aprofundamento: O que precisamos fazer para que a Palavra de Deus seja uma verdadeira força evangelizadora em nossa comunidade e paróquia? Dê exemplos.
Acesse o livrinho preparado para o estudo nas comunidades
Carta aos Romanos – Mês da Bíblia 2025
No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial. O apelo para preservar “uma magnífica humanidade habitada por Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz. Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a teoria da “guerra justa”, relançando o diálogo e o multilateralismo
25 maio 2026
O Papa Leão XIV se recusa a vestir as armaduras dos Golias de sempre e suas armas nucleares de destruição em massa, pois suas armaduras são outras, aquelas descritas em Ef 6,10-17, sugeridas para os discípulos do Reino: “revistam-se de toda a armadura de Deus, para estarem firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades...
21 maio 2026
O trabalhador já não se percebe como sujeito coletivo. A experiência comum de luta foi substituída por trajetórias individualizadas, marcadas pela lógica do desempenho. A precarização deixou de ser entendida como injustiça estrutural e passou a ser interpretada como fracasso pessoal...
01 maio 2026