Por Denilson Mariano
A Carta aos Romanos aponta que a humanidade é pecadora (Rm 3,9-20), e isto vale para os judeus e para os pagãos diante da Lei. Os judeus sentiam-se superiores por terem recebido a Lei. A Carta deixa claro que ter a Lei, ou o conhecimento dela, não garante a salvação. Ninguém escapa do juízo de Deus, e cada um será julgado por suas obras (Rm 2,3.6). De volta à velha polêmica: o que salva, a fé ou as obras? A Carta aos Romanos deixa claro que as obras não alcançam a justificação. Ou seja, a salvação é um dom gratuito de Deus, que só se pode alcançar pela fé. Mas isso não significa abandonar ou desprezar as obras.
A Carta aos Romanos revela a situação de pecado na qual vivem tanto os pagãos (Rm 1,18-32) quanto os judeus (Rm 2,1 – 3,8). Em resumo, “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,22-23). Todos são como Adão: foram criados para a glória, mas dela destituídos pelo pecado; assim como Eva, encontram-se desnudos da justiça com a qual haviam sido revestidos (Gn 2,25).
O pecado não é apenas algo pessoal, individual
Ao afirmar que todos pecaram, a Carta nos remete ao que hoje podemos chamar de “pecado estrutural”. É quando o mal, a injustiça ou o pecado não estão apenas nas atitudes de uma pessoa individual, mas estão dentro de sistemas, leis, costumes ou estruturas da sociedade. Ou seja, é algo que está "organizado" de forma errada e que prejudica muita gente, especialmente os mais fracos e pobres. Não é só uma pessoa sendo injusta — é uma estrutura inteira funcionando de forma injusta e todo mundo acaba participando, mesmo sem perceber.
Em nossa sociedade, temos várias situações que revelam esse “pecado estrutural”, confira: a) Racismo estrutural: quando pessoas negras têm mais dificuldade de conseguir emprego, estudar ou serem bem tratadas, não por culpa de uma pessoa só, mas por causa de um sistema que já discrimina há muito tempo; b) Desigualdade social: quando o sistema econômico favorece os ricos e dificulta a vida dos pobres, impedindo que todos tenham as mesmas oportunidades; c) Corrupção que se repete: quando, em muitos lugares públicos, a corrupção é “naturalizada”, como se fosse “normal”, parte do sistema; d) Violência contra mulheres: quando a cultura machista faz com que mulheres sejam tratadas como inferiores, o que se reflete nas leis, nos salários, nos relacionamentos.
O Evangelho nos chama a lutar não só contra nossos pecados pessoais, mas também contra tudo o que oprime, exclui e mata a dignidade das pessoas. Jesus também enfrentou estruturas injustas do seu tempo e isso transparece também na comunidade cristã de Roma e na Carta aos Romanos.
Recriar em nós as ações e atitudes de Jesus
Para enfrentar essa situação, não bastam atitudes exteriores, mas uma conversão verdadeira a Jesus Cristo e ao seu projeto. O autor da Carta revela que os judeus se fecharam na observância cega da Lei e não reconhecem a gratuidade do amor de Deus (Rm 3,21-31). Ninguém se salva a si mesmo por meio do cumprimento de preceitos legais (Rm 9,14-24). A justificação não vem pelas obras. Jesus ressuscitado é a maior prova do amor gratuito de Deus. Esse amor é que pode salvar a todos. Quem crê em Jesus encontra a salvação de Deus (Rm 10,10). O Evangelho é gratuidade, é boa notícia para judeus e gentios. A salvação se funda na existência de um só Deus, não somente criador e governador do mundo, mas um Deus cheio de amor e de misericórdia para com todos (Dt 6,4; Gl 3,20). Por isso, a Carta aos Romanos atesta: “nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (Rm 3,28).
A Carta explicita que as práticas devocionais exteriores (= Lei: circuncisão, o Templo, os sacrifícios sangrentos...) não salvam por si mesmos. Isso ilumina as devoções de hoje: elas têm sentido na medida em que nos apontam para a fidelidade a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho. Valem na medida em que nos levam ao compromisso com o projeto de justiça e de vida em abundância para todos (Jo 10,10). Sem isso, tornam-se práticas vazias, sob o risco de idolatria (= adoração falsa). A fé em Cristo, recebida no batismo e cultivada na vivência em comunidade, nos leva a agir como Cristo. Nos leva a um novo modo de ser e de nos relacionar com Deus, com o próximo e com a Criação. Somos chamados a estar firmes na fé em Cristo, recriando suas ações e decisões no hoje de nossa história, mediante os desafios próprios de nossa atualidade. Chamados a estar a serviço da vida plena (Jo 10,10), vencendo os pecados pessoais e estruturais.
“A esperança não decepciona”
A Carta nos reveste de um novo sentido para a vida: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). A Carta aos Romanos reafirma que a nossa esperança está em viver e morrer como Cristo; assim, ressuscitaremos com Ele (Rm 5,1 – 6,11). E viver em Cristo é estar sob o domínio da graça de Deus (Rm 6,12-13). Mediante a fé, adesão livre e consciente a Jesus Cristo e seu projeto, nos encontramos em paz diante de Deus. Não significa ausência de problemas ou dificuldades a serem vencidas, mas a certeza de que nos abrimos à graça e à misericórdia de Deus, que vem ao nosso encontro. A exemplo de Abraão, vivemos um peregrinar na fé, na certeza de que Deus nos acompanha, nos mostra o caminho e segue à nossa frente. A Ressurreição de Jesus torna-se a luz que ilumina o caminho e dá firmeza aos nossos passos. Daí vem a esperança que nos anima a partir de dentro, do mais profundo, que nos comunica o Espírito Santo. D’Ele nos vêm a graça, a força e a esperança que nos movem e nos fazem ir adiante, mesmo “contra toda esperança”.
O Papa Francisco nos recordou que “a esperança cristã não engana nem desilude, porque está fundada na certeza de que nada e ninguém poderá jamais separar-nos do amor divino (Rm 8,35.37-39). Por isso mesmo, esta esperança não cede nas dificuldades: funda-se na fé e é alimentada pela caridade, permitindo assim avançar na vida.” (Carta do Jubileu 2025, nº 3).
Cristo foi um peregrino de esperança; por onde passava, semeava a vida, o amor, a paz, a justiça... Como discípulos de Jesus, somos chamados a vencer e a encarar de frente a realidade ao nosso redor (vencer os desvios cognitivos, a desinformação) e a lutar pela superação de toda forma de pecado (pessoal e estrutural). Na busca de fidelidade a Jesus e a seu Evangelho, nos tornamos peregrinos de esperança: pessoas que buscam um mundo melhor para todos, pessoas que ousam sonhar com a vida em abundância para todos (Jo 10,10).
Para aprofundamento: O jubileu que celebramos está nos convertendo em verdadeiros peregrinos/as de esperança? Dê exemplos.
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Carta aos Romanos – Mês da Bíblia 2025
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