Sinodalidade é compartilhar a água com todos, puxá-la ao seu moinho nos empobrece

Por Luis Miguel Modino

Em poucas horas, a Segunda Sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade nos deixou algumas reflexões, que devem nos levar a nos perguntar sobre algumas atitudes que devemos deixar para trás se quisermos ser uma Igreja sinodal, se quisermos viver a sinodalidade na prática.

Diálogos entre surdos

Fiquei impressionado com as palavras do Papa Francisco em sua homilia na missa de abertura, na qual ele advertiu sobre o perigo de “nos fechar num diálogo de surdos, onde cada um tenta ‘puxar água ao seu moinho’ sem ouvir os outros e, sobretudo, sem ouvir a voz do Senhor”. Mais uma vez, ele nos adverte sobre uma atitude que está presente em muitas pessoas, até mesmo em muitos de nós, até mesmo em mim e em você, mesmo que não sejamos capazes de reconhecê-la.

A tentativa de “levar água para o seu próprio moinho” é um sinal de que não sabemos quem é Deus, fonte de água em abundância para todos, que move a vida de todos, a água move a roda do moinho, também daqueles em quem não somos capazes de descobrir a vida que nasce deles, pois não nos esqueçamos de que Deus deposita essa vida em cada uma das criaturas.

Quando escutamos os outros e escutamos a voz do Senhor, somos enriquecidos, ainda mais quando essa escuta nasce da diversidade. Mesmo que tenhamos medo de quem é diferente, de quem pensa diferente, isso também acontece na Igreja. A diversidade é uma fonte de conhecimento, é algo que enriquece nossa vida, porque encontramos pessoas, realidades, maneiras de viver a fé que, por serem desconhecidas, nos permitem aumentar nosso conhecimento.

Apontar trajetórias de crescimento

Francisco é alguém com uma grande capacidade de nos questionar, de nos colocar diante de nós mesmos e diante de Deus, uma atitude necessária para podermos crescer pessoalmente e como comunidade, para podermos caminhar juntos, para podermos tornar realidade uma Igreja sinodal. Daí a importância do tempo de retiro antes da Assembleia Sinodal, da necessidade de viver o Sínodo em um clima de oração para escutar a voz do Espírito, que pode ajudar os membros da Assembleia Sinodal a indicar “possíveis caminhos de crescimento pelos quais convidar as Igrejas a caminhar”, como disse o Cardeal Hollerich, relator geral do Sínodo, na primeira congregação geral, realizada na tarde de 2 de outubro.

Não queiramos monopolizar Deus, não pensemos que somos os únicos que o conhecem, não nos sintamos donos de Deus. Estejamos convencidos de que caminhar juntos nos enriquece, que compartilhar a água que vem de Deus não só enriquece os outros, mas também a nós mesmos. Vamos disfrutar do caminhar juntos, vamos sentir a alegria de viver nossa fé em comunhão com a humanidade e com todas as criaturas. É hora de assumir que a sinodalidade é compartilhar a água com todos, que puxá-la ao seu moinho só nos empobrece.

F/ LMModino

 

 

Últimas notícias

A paz não é um sonho, é uma escolha urgente.

Mundo

É urgente recuperar aquilo que nos faz humanos: o respeito, a dignidade, o valor da vida e da comunidade. Nenhuma tecnologia pode justificar a perda da consciência. Nenhum poder pode estar acima da vida.

05   abril   2026

Quando o descanso adoece: o fenômeno da “leisure sickness”

Sociedade

Entenda por que algumas pessoas ficam doentes justamente nos momentos de descanso e o que isso revela sobre o ritmo de vida atual.

04   abril   2026

Entre o sagrado e o produtivo: o desaparecimento do descanso e da festa na sociedade contemporânea

Sociedade

A crítica de Byung-Chul Han aponta para a urgência de recuperar o valor do descanso, perdemos algo muito importante: a capacidade de contemplar, de parar e simplesmente estar. O sistema em que vivemos não permite isso. Tudo precisa ser útil, produtivo, comparável. No fim, tudo fica meio igual — sem beleza, sem diferença, sem profundidade.

04   abril   2026

Sexta-feira Santa e a responsabilidade com a nossa fé

Extras

Talvez o maior risco deste dia seja reduzi-lo a um momento de emoção passageira, sem permitir que ele atravesse a vida. Porque, se a cruz não nos desloca, ela se torna apenas mais um símbolo entre tantos outros. E a fé, então, perde sua força transformadora.

03   abril   2026
Utilizamos cookies para melhor navegação. Ao utilizar este website, você concorda nossa Política de Cookies e pode alterar suas Preferência de Cookies. Consulte nossa Política de Privacidade.
Não aceito