“Água viva” (Ez 47,9.12)
1. Qual a importância da Palavra de Deus na fé do povo de Deus?
Jesus compara a Palavra de Deus com a semente lançada em todos os terrenos (Mt 13). E a semente contém dentro dela toda a planta: raiz, caule, folhas, flores e frutos... A Palavra de Deus é uma semente que tem dentro dela toda a vida da Igreja: nela está a liturgia, os sacramentos, a catequese, a missão... Quanto mais nos aproximamos, com fidelidade, à Palavra de Deus, mas a vida da Igreja se firma e se fortalece nos passos de Jesus, quanto mais descuidamos da Palavra, mais a Igreja se distancia do ideal do Reino. Se a Palavra é a alma da teologia (DV 24) é a alma de toda a vida da Igreja.
2. O que é e como surgiu a agenda chamada “Tempo da Criação”?
O Tempo da Criação é um período que vai de 1º de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, até 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. É um tempo para rezar, refletir e agir em favor da Criação. Mais do que uma campanha, é uma oportunidade de perceber que cuidar da Casa Comum faz parte da nossa fé. A Igreja foi assumindo cada vez mais essa preocupação, especialmente com o Papa Francisco, nas Exortações Apostólicas Laudato Si’ e na Laudate Deum. O “Tempo da Criação” é um convite a uma conversão ecológica, isto é, mudar nosso modo de olhar, consumir, produzir e nos relacionar com a natureza.
3. Como a Bíblia pode nos inspirar na defesa da Casa Comum?
A Bíblia nos mostra que Deus cria um paraíso para que nele a humanidade pudesse habitar. A Criação é dom de Deus e a tarefa da humanidade é cultivar e guardar esse jardim de Deus (Gn 2,15). E, em Ezequiel 47,9, a água que sai do templo vai se espalhando e, por onde passa, faz nascer vida. É uma imagem que aponta para a nossa missão: cuidar da Criação, espalhar vida. A fé verdadeira não fica parada; se move para gerar vida. Defender a Casa Comum é cuidar da vida humana e da vida no Planeta. É defender a vida dos pobres, das comunidades, dos rios, das florestas, da terra e de toda a Natureza.
4. Como o tema “Água Viva” pode abrir pistas para uma espiritualidade ecológica? No texto de Ezequiel a água brota de dentro do templo e por onde ela passa gera vida. Essa é a ação de Deus na história da humanidade, confirmada na pessoa de Jesus que transformava as situações de menos vida em “vida em abundância” (Jo 10.10). Jesus é a “água viva” que curava, ensinava, multiplicava o pão, devolvia a esperança ao povo. Hoje somos os continuadores da missão de Jesus, não podemos ficar parados ou presos nos templos e igrejas. Nossa missão é espalhar vida no mundo, ser semeadores de vida e esperança. O rio que nasce no Santuário é símbolo de uma Igreja “em saída missionária” espalhando vida
5. Depois das enchentes e estiagens, qual seria o apelo de Deus às comunidades?
Talvez o primeiro apelo seja:
não podemos continuar vivendo como se a natureza fosse inesgotável. As enchentes e estiagens nos fazem perceber que a crise ambiental já bate à nossa porta. Deus nos chama à responsabilidade. Não basta lamentar as tragédias; precisamos aprender com elas, cuidar das nascentes, dos rios, das matas e do solo, evitar desperdícios e cobrar políticas públicas que protejam a vida. O sofrimento dos atingidos deve despertar em nós solidariedade e compromisso.
6. Como expressar nossa fé em Jesus Cristo no cuidado da Casa Comum?
Seguir Jesus é escolher a vida. Portanto, cuidar da Casa Comum é uma maneira concreta de viver o Evangelho. Não se trata de acrescentar uma preocupação ambiental à nossa fé, mas perceber que a defesa da vida faz parte do próprio Evangelho. “Tudo está interligado” (
Laudato Si’ n. 91), o grito da terra e o grito dos pobres são inseparáveis.
7. Que gestos concretos podem realizar paróquias e famílias?
Há muitas coisas ao nosso alcance: cuidar das nascentes e rios; evitar desperdício de água e alimentos; separar e reduzir o lixo; plantar árvores; proteger áreas verdes; promover hortas comunitárias; reduzir o uso de descartáveis; valorizar os agricultores e a produção local. Nas comunidades, podemos incluir a Casa Comum nas celebrações, círculos bíblicos, catequese e reuniões pastorais. O importante é que a reflexão se transforme em prática.
8. Como unir cuidado da Criação, amor ao próximo e anúncio do Evangelho?
As três coisas caminham juntas. Quando cuidamos da água, estamos cuidando da vida. Quando defendemos uma comunidade atingida por uma enchente, estamos amando o próximo. Quando educamos para uma vida mais simples e solidária, estamos anunciando o Evangelho. A Boa-Nova precisa produzir frutos concretos. Nossa fé precisa chegar onde existe sofrimento e ajudar a fazer a vida florescer.
9. Como o livro de Daniel pode nos ajudar na responsabilidade ambiental?
Daniel vive um período muito difícil, de grande opressão por parte dos impérios. Mas ele e seus amigos encontram formas de resistir, manter a fé e permanecer fiéis a Deus em meio ao sistema de dominação. Daniel nos faz ver que nem tudo aquilo que a sociedade apresenta como progresso promove a vida. Precisamos ter coragem para questionar modelos que destroem a natureza e geram exclusão. A fé nos dá discernimento para escolher aquilo que serve à vida. Como Daniel, somos chamados a não nos deixar dominar por uma cultura que coloca o lucro acima da vida.
10. Uma mensagem para que este Tempo da Criação seja caminho de esperança para nossa Diocese.
Que este Tempo da Criação nos ajude a descobrir que
cuidar da Casa Comum é cuidar da vida que Deus nos deu. Que a Palavra de Deus nos transforme em fonte de vida: por onde passarmos possamos ajudar a recuperar a vida, renovar a esperança e fazer nascer iniciativas de cuidado e preservação. É fato que não podemos resolver todos os problemas de uma vez, mas podemos começar por onde estamos: nossa família, comunidade e paróquia podem ser pequenos sinais de uma nova relação com a Criação. Que nossa fé não seja uma água parada, mas uma “
água viva”, capaz de gerar vida, solidariedade e esperança por onde passar.
Entrevista para a Revista: Integração Diocesana - Diocese de Santa Cruz do Sul - Setembro 2026.