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Uma teologia com os pés no chão da vida

Por A redação

A teóloga argentina Emilce Cuda fez um importante convite à reflexão cristã ao inaugurar, em Barcelona, o novo curso do Cristianisme i Justícia. Em sua conferência, intitulada “Chaves para uma teologia do nosso tempo”, ela chamou a atenção para uma questão fundamental: como falar de Deus em um mundo que está mudando profundamente? 

Para Cuda, a teologia não pode permanecer distante da realidade nem limitar-se a repetir fórmulas do passado. Ela precisa escutar as perguntas do presente, discernir os sinais dos tempos e caminhar junto das comunidades que enfrentam as desigualdades e as grandes transformações sociais, culturais e tecnológicas. Sua reflexão parte de uma experiência muito presente na tradição latino-americana: o método do ver, julgar e agir. 

Uma teologia feita com o povo

Um dos pontos fortes da reflexão de Cuda é a afirmação de que a teologia não deve ser feita simplesmente “para o povo” ou “sobre o povo”, mas com o povo. Isso coloca a experiência das comunidades no centro da reflexão cristã.

A fé não acontece apenas nos livros, nas salas de aula ou nos ambientes acadêmicos. Ela se manifesta na vida concreta: nas alegrias e sofrimentos das pessoas, nas lutas por justiça, nas comunidades, nas periferias e nas experiências daqueles que enfrentam situações de exclusão.

Por isso, a teologia precisa sair ao encontro da realidade. Segundo Cuda, o teólogo não deve se colocar acima do povo como alguém que possui todas as respostas, mas contribuir para que a comunidade possa discernir, reconhecer os sinais de Deus e alimentar a esperança. ?

Essa perspectiva recupera algo muito importante para a vida da Igreja: o sensus fidelium, isto é, a capacidade de todo o povo de Deus, pela graça da fé, participar do discernimento sobre aquilo que conduz ao bem, à justiça e à vida. A teologia, nesse sentido, está a serviço da comunidade e da evangelização. 

Discernir em meio à confusão

Vivemos um tempo marcado por muitas mudanças. As novas tecnologias, a inteligência artificial, as transformações culturais, as desigualdades sociais e as disputas de poder modificam profundamente a maneira como as pessoas vivem e compreendem o mundo.

Nesse cenário, Cuda chama atenção para o risco de transformar determinadas ideias humanas em verdades absolutas. Ela distingue teologia e ideologia: enquanto a teologia procura falar de Deus, a ideologia pode transformar uma determinada ideia em algo absoluto, chegando ao que ela identifica como uma forma de idolatria. 

Daí nasce uma tarefa importante para as comunidades cristãs: aprender a discernir. Em meio a tantas informações, discursos e interpretações, a Igreja precisa ajudar as pessoas a reconhecer o que promove a dignidade humana, a fraternidade, a justiça e a esperança.

A teologia precisa estar nas fronteiras

Outra imagem forte apresentada por Cuda é a da fronteira. Para ela, é necessário aproximar-se dos lugares onde estão as pessoas que sofrem e enfrentam as consequências das injustiças.

A reflexão teológica ganha credibilidade quando não permanece indiferente diante do sofrimento. Não basta possuir formação acadêmica; é preciso também testemunhar, na própria vida, o compromisso com a justiça e com a dignidade das pessoas. 

Essa perspectiva é profundamente pastoral. Uma Igreja que deseja anunciar o Evangelho precisa conhecer as dores e esperanças do seu povo. Precisa estar onde a vida acontece.

E a inteligência artificial?

A inteligência artificial aparece na reflexão de Cuda como um dos sinais mais evidentes da mudança de época. A questão não é apenas saber utilizar novas tecnologias, mas compreender como elas estão transformando as relações humanas, a cultura e a própria maneira de interpretar a realidade.

Por isso, a teologia também precisa entrar nesse diálogo. O desafio é perguntar, à luz do Evangelho, o que essas transformações significam para a dignidade humana, para as relações sociais e para o futuro da humanidade. Cuda relaciona essa preocupação com a reflexão do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial e as novas formas de concentração de poder e capital. 

Aqui se abre uma tarefa importante para a formação cristã: não ter medo das novas tecnologias, mas também não aceitá-las de maneira ingênua. É preciso conhecê-las, discernir seus impactos e colocá-las a serviço da pessoa e do bem comum.

Teologia para alimentar a esperança

No fundo, a reflexão de Emilce Cuda apresenta uma pergunta pastoral muito simples e profunda: como falar de Deus hoje de modo que essa palavra toque a vida das pessoas?

A resposta passa por uma teologia que escuta, dialoga, discerne e acompanha. Uma teologia que não perde suas raízes, mas também não tem medo de enfrentar as perguntas novas.

A esperança cristã, nessa perspectiva, não significa fechar os olhos diante dos problemas. É uma esperança que se transforma em compromisso, fraternidade e ação. A fé, a esperança e a caridade precisam tornar-se visíveis na vida cotidiana. 

Para nossas comunidades, fica uma provocação muito concreta: estamos conseguindo relacionar nossa fé com as perguntas que as pessoas fazem hoje? Estamos ouvindo os jovens? Estamos atentos às novas tecnologias? Estamos próximos daqueles que sofrem? Nossa formação cristã ajuda as pessoas a discernir ou apenas repete respostas prontas?

Talvez uma das grandes contribuições dessa reflexão seja justamente essa: a teologia não pode perder o contato com a vida. Ela precisa olhar o mundo com os olhos da fé, escutar o que o povo vive e, a partir do Evangelho, ajudar a construir caminhos de esperança.

Como conclui a reflexão apresentada por Cuda, diante de um mundo em rápida transformação, precisamos recuperar a capacidade de parar, observar a realidade e escutar. É nesse chão da vida que a teologia encontra novos caminhos para falar de Deus e servir à missão da Igreja. 

Fonte: Xavier Pete, “Emilce Cuda: ‘La teología debe descubrir nuevos caminos para afrontar los cambios de época’”, Religión Digital, 30 de setembro de 2026. Leia a matéria original na Religión Digital 


*Síntese e tradução feita com ajuda de IA

 

 

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