Por Juan José Tamayo
[Por: LO Pedro J. Navarro | Christian Networks]
O escritor natural de Palência está em visita a Múrcia para apresentar seu mais recente livro, "Política e Religião", no qual analisa a aliança entre a extrema-direita e o fundamentalismo cristão.
O teólogo Juan José Tamayo apresentará seu novo livro, Política e Religião (Tirant Lo Blanch, 2026), esta tarde, às 12h30, na sede do Podemos da Região de Múrcia (Rua Cartagena). O livro chega em um momento de máxima polarização social e analisa com precisão cirúrgica a crescente aliança entre a extrema-direita e o fundamentalismo cristão.
Nesta entrevista ao jornal La Opinión, Tamayo aborda fenômenos como o cristofascismo, identificando a Região de Múrcia como um de seus laboratórios mais visíveis, e defende um cristianismo laico e libertador, enraizado na figura histórica de Jesus de Nazaré. Ele também reflete sobre os riscos da inteligência artificial e avalia as recentes ações do Papa Leão XIV, a quem agora considera uma das vozes morais mais fortes contra a guerra e as novas formas de dominação global.
Em que ponto você acha que nos encontramos na relação entre política e religião?
A relação entre política e religião não é recente nem fortuita: tem raízes profundas, que remontam à Grécia Clássica e se estendem até os dias de hoje. Essas duas realidades inevitavelmente se entrelaçam na vida pessoal e coletiva das nações. Ao longo da história, coexistiram com períodos de separação, colaboração e conflito aberto. Hoje, enfrentamos um cenário particularmente delicado: uma crescente polarização tanto na esfera política quanto na religiosa. Essa polarização afeta a qualidade da democracia e determina se a política se orienta para o bem comum ou para os interesses privados; se a religião se torna uma força libertadora ou uma força legitimadora do poder.
A questão fundamental, então, pode ser se a religião deve ser confinada à esfera privada ou se pode ter uma presença pública.
Defendo uma presença pública libertadora, respeitosa da autonomia da política, da ciência, da cultura e da arte, mas comprometida com a classe trabalhadora. O oposto — a religião como legitimadora do poder — foi algo que já vivenciamos durante o regime de Franco, e suas consequências foram devastadoras.
No livro, ele fala sobre "fascismo cristão". Como ele define essa aliança e por que a considera uma rede internacional de ódio?
O conceito surgiu em 2019 durante um curso de teologia da libertação em Curitiba, Brasil. Um aluno me disse: "Na Igreja, somos proibidos de falar de política, e Bolsonaro passa o dia inteiro fazendo teologia". Esse contraste me levou a definir Bolsonaro como o "teólogo e pregador do cristofascismo", porque ele usava a linguagem religiosa para legitimar políticas autoritárias. Mais tarde, viajando pela América Latina e Europa, percebi que não se tratava de um fenômeno isolado: o golpe na Bolívia com o apoio de setores católicos conservadores; Salvini exibindo crucifixos e rosários na Itália; a aliança entre o Vox e associações católicas ultraconservadoras na Espanha… Tudo isso constitui uma aliança internacional entre a extrema direita política e os fundamentalismos cristãos — evangélicos e católicos — legitimada pelo pensamento neoconservador e pelo neoliberalismo. É uma "internacional do ódio" porque compartilham um programa comum baseado na rejeição: ódio ao feminismo (chegam a chamar as feministas de "feminazis"), ódio à imigração expresso em xenofobia e racismo, negação das mudanças climáticas, rejeição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ódio às pessoas LGBTQ+, islamofobia e antissemitismo... É uma inversão absoluta dos valores cristãos: onde o cristianismo propõe o amor, eles propõem o ódio; onde propõe o perdão, eles propõem a vingança; onde propõe a hospitalidade, eles constroem muros.
Em seu texto, ele menciona a Região de Múrcia como um caso paradigmático. Que papel ela desempenha nesse fenômeno?
A Região de Múrcia funciona como um laboratório onde a agenda do establishment político e religioso de extrema-direita é testada. O veto parental, aprovado sob pressão do Vox, e as medidas contra abrigos para crianças são exemplos de como essa ideologia se traduz em políticas concretas. Mas também quero enfatizar que em Múrcia existe uma resposta cristã e cívica muito coerente, que nem sempre recebe a visibilidade que merece. Grupos cristãos — e também grupos muçulmanos — têm defendido a educação integral, a hospitalidade e o acolhimento. A Iniciativa Legislativa Popular para a regularização de migrantes, promovida pela Cáritas, é um exemplo de autêntico compromisso evangélico. O problema é que a mídia amplifica mobilizações racistas ou antifeministas, mas não dá destaque às iniciativas de solidariedade. A polarização não é gerada por aqueles que defendem a dignidade humana, mas por aqueles que promovem o discurso de ódio.
Um dos argumentos mais marcantes do livro é apresentar Jesus de Nazaré como um judeu secular. De que forma essa perspectiva ajuda a defender a compatibilidade entre o cristianismo e um Estado laico?
Jesus não pertencia a nenhuma família sacerdotal, não era um oficial do templo, nem tinha reconhecimento oficial como rabino. Sua vida pública não se desenrolou no templo, mas nas estradas, nas aldeias e cidades da Galileia, na esfera cívica. Ele era um leigo que vivia sua fé a partir da perspectiva das tradições proféticas, de sabedoria e apocalípticas.
Sua postura era profundamente crítica em relação aos pilares da religião oficial, pois ele criticava os lugares sagrados, os tempos sagrados, as ações sagradas e as autoridades religiosas.
Seus maiores conflitos não foram com a religião, mas com o poder político imperial, que acabou por condená-lo. Em oposição ao império, Jesus propôs o Reino de Deus, que se concretiza por meio de práticas libertadoras. Além disso, ele lançou um movimento igualitário para homens e mulheres, algo revolucionário para a sua época. Não podemos dizer que ele era um feminista no sentido moderno, mas seu movimento certamente teve origem em um grupo de mulheres. Por todas essas razões, defendo que não há contradição entre o cristianismo e o laicismo. O laicismo garante a liberdade de consciência e impede que as religiões se tornem cogovernantes ou colegisladoras.
Por que você acha que certos setores da hierarquia continuam a rotular o secularismo como fundamentalismo secular?
Devido a uma imagem distorcida do laicismo e à persistência do clericalismo, que busca manter o controle sobre a vida política, legislativa e social, o laicismo defende a independência da política em relação a qualquer supervisão religiosa, a liberdade de consciência (crer ou não crer) e a responsabilidade pessoal em questões de fé. Todas as instituições são laicas, e isso não representa uma ameaça à religião, mas sim a sua melhor garantia de liberdade.
Qual a sua opinião sobre Leão XIV e suas recentes intervenções?
A verdade é que as ações recentes de Leão XIV me impressionaram profundamente. Sua encíclica Magnifica Humanitas me pareceu um documento de enorme importância, e acredito que, nestes últimos meses, ele alcançou algo que lhe faltava no início de seu pontificado: tornar-se uma verdadeira autoridade moral em escala global. Isso se deve, sobretudo, à sua firme posição contra os belicistas — Netanyahu, Trump e outros líderes que alimentam a lógica da guerra — e à sua afirmação inequívoca de que não existem guerras justas, que o único caminho defensável é uma paz justa, desarmada e que promova o desarmamento. Essa clareza ética lhe conferiu uma força que talvez não fosse percebida antes, em parte porque ele ainda estava se adaptando ao seu novo papel e em parte porque a sombra de Francisco, com sua personalidade marcante, pairava sobre ele. Durante meses, ele foi constantemente julgado em comparação a Francisco, quase sempre a ponto de ser visto como inferior.
Mas ele reconhecerá que isso mudou e que a encíclica é um bom exemplo disso.
De fato. Com sua posição inequívoca contra a guerra, Leão XIV tornou-se, a meu ver, a figura com a maior autoridade moral no cenário internacional. E a encíclica confirma isso: é um texto que o coloca entre os grandes defensores da dignidade humana, especialmente a dignidade daqueles cuja dignidade é mais violada: os pobres, os oprimidos e os povos submetidos a sistemas de dominação como o capitalismo, o colonialismo, o patriarcado e o imperialismo, que são hoje mais fortes do que nunca. Além disso, o documento tem uma dimensão histórica em relação à inteligência artificial. Ele pode traçar um novo rumo para a humanidade porque não se limita a descrever os riscos tecnológicos, mas analisa suas consequências para a educação, o trabalho, a governança, os direitos humanos e a vida social. Se as diretrizes que propõe forem seguidas, a IA poderá ser usada para melhorar a vida humana, e não o contrário. Em suma, acredito que estamos testemunhando um pontificado que encontrou sua voz e seu lugar, e que oferece uma interpretação profundamente humanista, crítica e libertadora do momento histórico que estamos vivendo.
O que você espera da visita do Papa Leão XIV à Espanha?
Mais do que esperança, é um desejo: que o Papa aborde os principais problemas que a sociedade espanhola e a Igreja enfrentam. No que diz respeito à Igreja, isso inclui renunciar aos privilégios derivados de acordos com a Santa Sé, restituir as propriedades indevidamente registradas em seu nome, acolher migrantes, refugiados e pessoas LGBTQ+ em suas comunidades, apoiar os mais pobres e pagar indenizações justas às vítimas de pedofilia. E, no âmbito político, significa combater a corrupção, condenar a extrema-direita por seu antidemocrático e por defender valores contrários à democracia e ao Evangelho, garantir o direito à moradia e enfrentar a injustiça estrutural e as crescentes desigualdades. Se a visita atingir esse objetivo, terá cumprido uma função histórica.
Fonte: Ameríndia. Trad. internet
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